Como recuperar o organismo depois do antibiótico

Evite 9 erros ao tomar antibióticos

Parar o tratamento interfere no curso da doença; veja outras práticas que afetam a eficácia do medicamento

Como recuperar o organismo depois do antibiótico

Foto: Jose Luis Pelaez Inc/GettyImages

Nem todo mundo trata o assunto com a seriedade que ele merece. Qualquer dor de cabeça basta para correr à farmácia e pedir uma caixa daquele remédio que alguém na família tomou - mas isso pode ser um tiro no pé quando o assunto é usar antibióticos, uma vez que eles precisam de prescrição médica rigorosa.

Confira os erros mais comuns do tratamento com antibióticos, os perigos relacionados e como proceder em situações de surpresa, como o esquecimento de uma dose ou o aparecimento de alergias: 

Como todo medicamento, o antibiótico tem um tempo específico de vida em nosso organismo após ser ingerido. Conforme a classe de antibióticos e seu tempo de vida, bem como a doença e condição do paciente, o remédio é prescrito para dez dias, sete dias ou três dias."Nos casos em que ele deverá ser ingerido por dez ou sete dias, o paciente pode sentir uma melhora dos sintomas logo nas primeiras doses", explica a farmacêutica Patrícia Moriel da Faculdade de Ciências Médicas na Universidade de Campinas (UNICAMP). Imaginando estar já com a doença curada, o paciente pode interromper o uso da medicação, quando na verdade é apenas a carga microbiana que diminui no organismo, sem ser completamente exterminada.

"Esses micro-organismos que não foram eliminados podem fazer com que a pessoa volte a ficar doente", afirma a especialista. E não pense que é impossível pecar pelo excesso - fazer o tratamento durar mais do que o recomendado pode sobrecarregar seu organismo e afetar as bactérias que são benéficas ao seu corpo. "É comum esse excesso de antibiótico destruir a microbiota intestinal, causando uma diarreia - mas em alguns casos os efeitos são mais graves e necessitam de internação."

Toda medicação é prescrita de acordo com um princípio básico: até que ponto os seus benefícios são superiores aos seus efeitos colaterais? Isso significa que a diminuição ou o aumento da dose podem acarretar sérias consequências, desde o agravamento da doença até intoxicação pelo excesso de medicação.

Ao escolher a dose, o profissional leva em conta não só a doença, como também peso, idade e doenças relacionadas do paciente. "Por isso, é fundamental seguir o tratamento exatamente como prescrito", aponta o infectologista Jorge Amarante, do Hospital Samaritano, em São Paulo. Se os sintomas piorarem ou se outros aparecerem, informe o seu médico antes de tomar qualquer atitude. Caso o médico que vá atendê-lo não seja o mesmo da vez anterior, não se esqueça de levar a receita prescrita.

O intervalo entre as doses é calculado de acordo com a chamada meia-vida do remédio (tempo em que a concentração dele cai pela metade na corrente sanguínea). Os horários devem se adequar à rotina do paciente, seus horários de trabalho e sono. Uma dose ingerida antes da hora pode causar intoxicação ou, simplesmente, pode não ser absorvida pelo organismo.

Quando você se esquece de tomar o medicamento, pode sofrer com a volta dos sintomas. "Se a pessoa está tomando antibióticos e atrasa um período inteiro, a bactéria pode voltar a se multiplicar e criar resistência ao medicamento", afirma o infectologista Jorge. Converse com o seu médico se a sua medicação atrapalha o seu dia a dia e sobre a melhor maneira de agir caso você se esqueça de uma dose.

O erro de tomar remédios sem prescrição é grave, mas com os antibióticos o perigo é dobrado. Há vários riscos envolvidos: alergia, intoxicação e, por fim, o não tratamento da doença. "Doenças virais não são combatidas com antibióticos, por exemplo", mostra o infectologista Jorge. Além disso, tomar os medicamentos à toa acaba afetando as bactérias naturais do nosso corpo e, muitas vezes, elas tornam-se nocivas e passam a causar doenças.

"Outro efeito recorrente é as bactérias eventualmente nocivas criarem resistência ao antibiótico se ele for usado indiscriminadamente, quando em alguns casos ele nem seria necessário para o tratamento", alerta o especialista. Sendo assim, antes de optar pelo tratamento, o melhor é verificar com um médico se a sua doença pede mesmo o antibiótico, qual a dose e o período necessário.

É de extrema importância informar ao médico os remédios que você já ingere antes que ele receite um antibiótico. Isso porque existem diversas classes de medicamentos que interagem entre si - no caso dos antibióticos podemos destacar a pílula anticoncepcional e os analgésicos. "É uma interação que não é grave, mas existe, e muitas pessoas acabam tomando o antibiótico sem ter noção disso", lembra a farmacêutica Patrícia. Segundo a especialista, na bula do medicamento constam quais são as possíveis interações e quais remédios evitar ingerir em conjunto - ou, no caso do anticoncepcional, utilizar outro método contraceptivo durante o período de tratamento da doença.

Caso você tenha se esquecido de perguntar ao médico, essa dúvida também pode ser tirada na farmácia, já que os farmacêuticos podem informar a respeito das interações. "Algumas lojas inclusive contam com programas que já fazem o cálculo do intervalo que deve ser dado entre uma medicação e outra para que elas não sejam metabolizadas juntas e sofram uma interação", declara Patrícia.

O líquido mais indicado para acompanhar a ingestão de antibióticos - assim como de todos os outros medicamentos - é a água. "Isso porque eles podem desencadear reações químicas quando ingeridas com sucos, leite, refrigerantes, chás ou café, que podem comprometer sua eficácia", explica a farmacêutica Patrícia. Um bom exemplo são os antibióticos com tetraciclina na composição - essa substância reage na presença de cálcio, e, portanto, tem sua eficácia comprometida se ingeridos com leite. Entretanto, de acordo com a especialista, alguns medicamentos podem até serem mais bem absorvidos quando na presença de uma bebida específica - mas isso deve ser indicado pelo médico ou você pode tirar a dúvida com o farmacêutico. Além disso, cruzar a hora da medicação com as refeições pode ser um problema.

"Enquanto alguns antibióticos são mais bem absorvidos se ministrados próximo da refeição, outros têm sua eficácia prejudicada se ingeridos nesse período", afirma Patrícia. Para tirar essa dúvida, basta chegar ao profissional e perguntar como aquele remédio deve ser tomado - qual horário, com qual alimento, etc.

Outra combinação perigosa e muito conhecida é antibiótico e bebidas alcoólicas. "O álcool pode tanto potencializar quanto neutralizar os efeitos de um medicamento, em alguns casos ativando enzimas que transformam o remédio em substâncias tóxicas para o organismo", alerta a farmacêutica Patrícia.

Isso acontece porque tanto o antibiótico quanto o álcool são metabolizados no fígado, e essa digestão conjunta pode ocasionar na interação e diminuir a eficácia do medicamento ou torná-lo tóxico. Ela aponta ainda que nenhum medicamento deve ser tomado com bebida alcoólica, pois ela interage com a maioria das classes medicamentosas.

Existem algumas classes de antibióticos que podem ser injetáveis, por uma questão de comodidade do paciente. "No geral a medicação injetável é ministrada quando o paciente precisa de doses maiores do medicamento ou então quando é necessária a ingestão de mais de um tipo de antibiótico, sendo um ministrado via oral e outro injetável", explica a farmacêutica Patrícia.

Entretanto, isso é uma decisão do médico, e o paciente nunca deve combinar uma medicação oral com injetável sem essa orientação. Além disso, usar exatamente o mesmo medicamento tanto por via oral quanto injetável não é recomendado, por isso nada de "turbinar" o efeito da injeção com o medicamento em pílula.

Se o antibiótico causar erupção na pele, coceira, dificuldade para respirar, manchas vermelhas na pele ou qualquer outra reação que não fazia parte do conjunto de sintomas inicial, é necessário procurar um médico imediatamente um hospital. Esses sinais podem indicar que você está tendo uma reação alérgica ao remédio, e esperar os sintomas passarem pode agravar ainda mais o quadro.

Ao ter uma dor de garganta, gripe ou um resfriado mais forte, mesmo sem prescrição médica, muitas pessoas dão um jeito para tomar um antibiótico e resolver o problema. Isso é um grande erro.

Além de nem sempre funcionar para tratar a doença que você tem, o uso desses medicamentos sem orientação médica pode tornar as bactérias mais resistentes e trazer diversas complicações à saúde. No Brasil, dados da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) apontam que cerca de 25% das infecções registradas são causadas por micro-organismos multirresistentes —aqueles que se tornam imunes à ação dos antibióticos. Já a OMS (Organização Mundial da Saúde) revela que, até 2050, tais bactérias poderão matar anualmente 10 milhões de pessoas no planeta, número maior que a mortalidade por câncer, que até lá atingirá cerca de 8,2 milhões de pessoas ao ano.

Julival Ribeiro, médico infectologista da SBI (Sociedade Brasileira de Infectologia) e membro da Apua (Aliança Para o Uso Prudente de Antibióticos) pontua que é necessário muito cuidado ao se tomar um antibiótico. "Primeiro, precisamos ressaltar que antibiótico serve para matar bactérias e não vírus (que são os causadores da gripe, resfriado, covid-19 etc.). O uso indevido desses medicamentos pode fazer com que essas superbactérias se tornem mais eficazes e mais difíceis de dominá-las", alerta.

Mas tomar antibiótico sem prescrição não é o único equívoco que você pode cometer ao usar esses remédios. Há outros erros que prejudicam a eficácia do tratamento e podem colocar sua saúde em risco. Mostramos alguns deles a seguir, com a ajuda de Ribeiro e de Lessandra Michelin, infectologista na Universidade de Caxias do Sul, mestre e doutora em biotecnologia e vacinologia pela Université de Genève (Suíça).

Abandonar o tratamento antes do final

Após ser ingerido, o antibiótico tem um tempo específico de "vida" em nosso organismo —isto é, um período que a substância permanece no corpo. Com base no tipo e gravidade da doença, bem como a classe de antibióticos e seu tempo de vida, o médico prescreve o remédio para dez dias, sete dias, três dias... Esse período deve ser respeitado, mesmo que você deixe de apresentar sintomas da doença que está tratando.

"Muitas pessoas se sentem melhor nos primeiros dias usando o medicamento e abandonam o tratamento antes do final. Isso tende a tornar a bactéria ainda mais forte, porque ela não morreu e pode gerar uma resistência ao medicamento no qual foi exposta. Ficam resquícios da infecção no organismo e ela pode voltar ainda mais potente", alerta Ribeiro.

Não tomar o remédio no horário certo

O intervalo entre as doses é calculado de acordo com a chamada meia-vida do remédio —tempo que leva para que a concentração da droga no organismo seja reduzida pela metade. Uma dose ingerida antes da hora pode causar intoxicação ou, simplesmente, pode não ser absorvida pelo organismo. E se passar muito tempo da hora de tomar o remédio a concentração da substância irá diminuir e você pode ter uma piora nos sintomas da doença e prejudicar a eficácia do tratamento.

Não ingerir a dose recomendada

Ao escolher a dose, o profissional leva em conta não só a doença, como também peso, idade e doenças relacionadas do paciente. Por isso, a dose também é um fator importante a ser respeitado. Se os sintomas piorarem, informe o seu médico antes de tomar qualquer atitude.

Consumir álcool durante o tratamento

É comum ouvir que ingerir álcool "corta" o efeito do antibiótico. Apesar de não ser exatamente isso que ocorre, a combinação não é recomendada pelos especialistas. O consumo de bebidas em conjunto com o remédio pode gerar reações e efeitos adversos, além de sobrecarregar o fígado —órgão responsável por metabolizar tanto o medicamento quanto o álcool no organismo.

Além disso, o álcool tem efeito diurético e pode fazer com que a concentração do antibiótico no corpo diminua mais rapidamente do que o normal, prejudicando seu efeito entre uma dose e outra (estamos falando da dose do remédio, não da "cachaça", ok?). A bebida ainda prejudica a imunidade e irrita o sistema gastrointestinal, o que também pode acontecer com o uso do medicamento. Por todos esses motivos, o melhor é evitar beber durante o tratamento. O líquido mais indicado para acompanhar a ingestão de antibiótico é a água.

Usar um antibiótico que sobrou de tratamento anterior

O erro é grave com qualquer medicamento —mas, com os antibióticos, em especial, o perigo é dobrado. Há vários riscos envolvidos: alergia, diarreia, dores no estômago, intoxicação e o não tratamento da doença são só alguns deles.

E além do favorecimento do surgimento de superbactérias —que já falamos—, tomar o medicamento à toa acaba afetando as bactérias naturais do nosso corpo e, muitas vezes, elas tornam-se nocivas e passam a causar doenças.

"Não é porque um medicamento funcionou em um tratamento anterior que ele deve ser usado novamente para o mesmo problema. Por causa de todos os riscos citados, quando você estiver doente, é imprescindível se consultar com um médico, que irá determinar a substância, a dose e o tempo de uso correto do tratamento", diz Ribeiro.